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54104/02/2016 a 03/03/2016

EDITORIAL | FSM 15 Anos Porto Alegre: balanços, desafios e perspectivas

É difícil, logo ao final de um evento das dimensões e proporções de um Fórum Social, em Porto Alegre, fazer avaliações e balanços conclusivos. Uma das principais características dos Fóruns Sociais, desde seu nascimento em 2001, é que sempre, sem nenhuma sombra de dúvida, ocorrem vários fóruns uns dentro do outro.

 

Há quem diga que o Fórum Social Mundial (FSM) de 2001 foi o melhor. Mas, outros contestam e apontam a presença de muitos homens, brancos e, na sua maioria, lideranças político-partidárias. Além de ser um evento que ocorreu na PUC/RS, uma tradicional universidade que acolhe o pensamento neoliberal do Brasil.

 

Em 2002, há quem diga que foi o Fórum Social e Hugo Chaves. Não muitas pessoas não viram o ex-presidente venezuelano em nenhum momento. Nem mesmo acho que a marca deste evento possa ser a tentativa de ocupação da loja do Mac Donald pela, ainda existente, Convergência Socialista. E assim por diante. Uns acham que foi o ativista francês José Bové, da Via Campesina, o ícone do evento, outros que foi Eduardo Galeano, outros que foi Saramago, outros que foi Esquivel em 2001, etc. e tal.

 

A riqueza dos processos dos Fóruns Sociais é que cada um vê e avalia o evento de sua perspectiva de luta, suas expectativas e, principalmente, sua opinião política sobre qual papel os Fóruns deveriam cumprir numa determinada estratégia. Há aqueles que apregoam, por exemplo, a necessidade do distanciamento dos Fóruns Sociais dos partidos e governos de esquerda. Mas, em todas as edições, essas mesmas lideranças ou organizações promoveram encontros entre os governos brasileiros, tendo o ex-presidente Lula participado como convidado em quase todas as edições.

 

Dito isso, fica mais tranquila uma avaliação da edição comemorativa dos 15 Anos do FSM em Porto Alegre. Porque será uma avaliação parcial, de uma organização que está desde o início nestes processos e que, mesmo enquanto campo político, não tem uma opinião única sobre eles. 

 

Para nós, o mérito desta edição foi, sem dúvida, sua metodologia radicalmente democrática e participativa. Praticamente todos os segmentos interessados no balanço do FSM foram envolvidos e convidados a se envolver. Desde janeiro de 2015, foram realizadas plenárias abertas, quinzenalmente, convidando-se lideranças de todas as redes e movimentos sociais locais, regionais, nacionais e, em alguns casos, internacionais, como ocorreu com a participação da delegação do Canadá em dois momentos, antes do FSM 15 Anos. O coroamento deste processo foi a realização de cinco seminários de metodologia e organização realizados em Porto Alegre com participação de membros brasileiros do Conselho Internacional (CI) e o Seminário Internacional do CI realizado em Salvador, que contou com 12 representantes internacionais do CI.

 

Outra qualidade metodológica foi a tentativa exitosa de construção do programa, concentrando as atividade temáticas autogestionadas no período da manhã e as mesas de convergência autogestionadas à tarde. Nunca havia se conseguido, previamente, que segmentos distintos, das mesmas lutas, construíssem mesas de debates conjuntas. Em Porto Alegre, nesta edição, as mulheres, os movimentos negros e negras, a juventude, a educação popular, os estudantes, os idosos e as lutas urbanas realizaram processos preparatórios e excelentes mesas de convergência com encaminhamentos que surtirão, e já estão surtindo, efeitos nas lutas dos próximos meses.

 

Nem todos conseguiram, é claro. A temática ambiental, por exemplo, e as articulações dos direitos humanos ficaram devendo esta tarefa. O mundo do trabalho não conseguiu montar uma mesa de convergência unitária, ficando cada central dando ênfase a temas específicos como trabalho decente, idosos ou a questão das mineradoras. Não foi possível, ao menos desta vez. Mas a metodologia política pode ser melhorada.

 

O tema do protagonismo de novos atores também é uma questão de destaque. Nas mesas, em quase sua totalidade, via-se juventude, equidade de gênero e representações do povo negro. Composições bem distintas daquelas dos primeiros Fóruns Sociais em Porto Alegre. As comunidades indígenas reclamaram, justificadamente, maior espaço de participação. E todas as lideranças não entenderam a ausência de representações do MST e da Via Campesina. Mas, como dito, cada Fórum é um Fórum em particular.

 

As duas maiores reclamações e críticas tem sido, primeiro, a ausência de nomes internacionais e nacionais que representem o pensamento crítico ao neoliberalismo e que não prestigiaram o evento. Nomes como os ex-presidentes Pepe Mujica e Lula, que informaram na véspera do evento que não compareceriam, ou mesmo o prefeito de São Paulo Fernando Haddad ou o vice-presidente da Bolívia Álvaro Linera, que não puderam comparecer por problemas de agenda.

 

Outra critica é que a tarefa de realização de um balanço, de identificação dos desafios e de indicação das perspectivas, objetivo principal do evento, não foram realizadas, deixando a desejar para quem esperava que o evento apontasse alternativas a serem levadas à Montreal, no FSM 2016.

 

As duas críticas parecem corretas, ou seja, a presença de tais convidados teria ampliado a divulgação e a amplitude do evento. E, evidente, se tivesse sido possível, de forma coletiva, realizar um balanço dos 15 anos do FSM, identificar os principais desafios e, mais que isso, indicar quais as novas perspectivas, teria sido um sucesso. No entanto, embora corretas, estas críticas precisam ser relativizadas, visto a característica e dinâmica de funcionamento autogestionário dos processos do FSM. Como em outras edições, o Comitê de Apoio Local indica propostas, propõe rumos e sugere dinâmicas. Mas, são as redes e movimentos sociais, a partir de seus objetivos e interesses, que aderem, ou não, às propostas e sugestões.

 

Desde sempre, a ideia de avaliar o próprio FSM era um tema em discussão. A maioria das redes e movimentos tinha como interesse não discutir o FSM, mas sim o atual momento histórico de luta contra os retrocessos, de defesa da democracia na América Latina e no mundo, a denúncia da indústria da guerra e a defesa dos direitos do planeta. Aliás, a adoção do lema “Paz, Democracia, Direito dos Povos e do Planeta” teve um importante papel mobilizador e aglutinador de sujeitos sociais antigos e novos.

 

O Fórum Social Temático, enfim, contribuiu para revelar a satisfação de muitas redes e movimentos sociais do Brasil, da América Latina e do mundo, com o papel que os Fóruns Sociais vêm desempenhando na conjuntura, seja como espaços de convergências, de troca de experiências, de construção de ações e estratégicas coletivas, de denúncia deste mundo injusto e insustentável e defesa de outro mundo possível, socialmente justo, economicamente igualitário e ambientalmente sustentável.

 

Grande parte dos movimentos presentes não vê crise no FSM, e sim grandes desafios num mundo em profunda e acelerada transformação. Mesmo com problemas, nada se compara ao FSM e nenhuma outra articulação consegue ter a mesma força e o mesmo propósito. Talvez a crise esteja na cabeça daqueles e daquelas que gostariam que os Fóruns Sociais fossem à imagem e semelhança de suas políticas e organizações. Mas se fossem isso, não seria o Fórum Social Mundial.

 

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